No Expresso desta semana, no único espaço onde podemos confirmar que Manuela Ferreira Leite existe (a sua coluna de opinião), a líder do PSD faz uma crítica a José Sócrates: que ele tem estado calado sobre as questões de segurança. Diz, no título, que se trata de um “silêncio alarmante”. Ferreira Leite está preocupada com o silêncio do primeiro-ministro sobre um assunto. É indiscutível que a líder do PSD é mais consequente: está calada sobre todos os assuntos.

Que se saiba, só este ano morreram 31 mulheres às mãos dos seus companheiros. É provavelmente o homício mais comum em Portugal. Está o país mobilizado para o combater? Abre noticiários? O CDS faz conferências de imprensa e propostas?

Dennis Kucinich na Convenção Democrata

Na coluna da direita já lá está o link para os artigos dos Expresso desta semana.

Neste post fiz, a propósito do caso da juíza com doença bipolar, várias perguntas. Dois portadores da doença deixaram comentários. Um deles, o de Miguel Pinto, por ser especialmente esclarecedor e pedagógico, deve ser destacado. Aqui fica, na integra, com os devidos agradecimentos:

“Como doente bipolar penso poder responder a algumas perguntas. Em primeiro lugar a doença bipolar é uma designação ultrapassada. Agora fala-se do expectro bipolar, pois existem vários tipos de doença bipolar e cada um dele com intensidades diversas.

Em segundo lugar, eu não falaria de alternância entre estados eufóricos e depressivos (devido à possibilidade de más interpretações). Escolho a expressão “destabilização de humor”.

Para quem invocou o Lítio, posso dizer que existem no mercado uma gama variada de estabilizadores de humor, como por exemplo o valproato de sódio (que controla o pólo da mania ou euforia, porventura o mais problemático seja na sua manifestação positiva ou negativa).

Bom, eu sei que sou bipolar e sei que tenho de tomar medicação para ter os “humores controlados”. Percebi também, como medida preventiva, que seria ideal a procura de mecanismos paralelos de relaxamento. Comecei a fazer meditação.

A linha de fundo é que nunca fui tão ponderado, nem tão centrado como desde que sei ser um doente bipolar. Colaborei. Desde que percebi os mecanismos da doença as crises não chegam a concretizar-se porque reconheço o seu começo e posso combatê-las. Posso aborrecer-me às vezes ou ficar triste, mas quem não o faz?

Profissionalmente sou conhecido pela minha objectividade e pela minha capacidade de análise, penso que mais desenvolvida devido a esta nova necessidade de estar centrado. Por isso:

- A avaliação que uma pessoa bipolar vai fazendo do seu próprio estado de saúde é muito boa.
- Um doente bipolar não necessita de interrupções de trabalho, a partir do momento em que aceita a doença e cumpre a medicação.
- Ser bipolar não impede o juízo e/ou a objectividade de ninguém, a partir do momento que é um estado conhecido do paciente e que este sabe quais os métodos de controle do mesmo.
- O stress permanente é um problema para qualquer pessoa. Confesso que hoje me deixo stressar menos porque sei que não posso fazê-lo. É como não gastar o dinheiro que não se tem.
- Quando é o próprio que se reconhece incapaz de cumprir as suas funções, não sei se isso será suficiente para cessar as funções. Há que provar se é um juízo altruísta (por auto-vitimização ou por desconhecimento de si enquanto pessoa bipolar com o distúrbio controlado) ou um juízo utilitário de quem quer ir para a reforma.”

Entre o “jet set” internacional que desagua nas nossas praias já se fala de um tipo que jura que é ministro e que apanha vedetas desprevenidas para as obrigar a posar com ele para fotógrafos. Basta ver um notável e não se contém. Atira-se para piscinas, persegue actrizes em minas de sal e convida-as para jantar. Os hotéis de luxo já foram avisados: não deixem entrar o emplastro.

No Expresso lemos a história de uma juíza mediática que sofre de doença bipolar. A própria, tenho consciência do seu estado de saúde, tentou afastar-se. Conta que num julgamento por negligência médica de que resultou a morte de uma criança se apercebeu do seu estado. Que odiava os arguidos e que não se conseguia concentrar. Acabou por pedir escusa e foi substituída. Os arguidos foram absolvidos pelo seu substituto e a juíza não tem dúvidas de que, consigo, independentemente de tudo, teriam sido com toda a certeza condenados. Por causa do seu estado. E por isso diz: “não posso arriscar voltar fazer outro julgamento”. Quer reformar-se.

Perante esta atitude de cautela da juíza, apoiada pelo Conselho Superior da Magistratura, a Junta Médica da Caixa Geral de Aposentações confirmou o diagnóstico: a juíza tem de facto doença bipolar. Mas não a reformou. Considera que ela pode continuar a julgar. Como a doença se caracteriza pela alternância entre o estado depressivo e não-depressivo, a juíza pode trabalhar quando estiver bem e meter baixa quando se sentir deprimida.

Não sendo nem magistrado nem médico, ficam perguntas a quem aqui me poder responder:

- A liberdade ou o destino de várias pessoas podem estar dependentes da avaliação que uma pessoa com doença bipolar vá fazendo do seu próprio estado de saúde?
- Compadece-se a actividade de magistrado com interrupções frequentes de funções, com repercussões graves nos processos?
- Sendo claro que pessoas com doença bipolar podem trabalhar, a doença é ou não incapacitante na desenpenho da actividade de um juiz?
- Implicando situações de stress permanente (pelo menos para quem leve a profissão a sério) que devem ser evitadas pela doente, é ou não pior para o seu estado de saúde manter este tipo de actividade?
- Tendo em conta que é a próprio a reconhecer-se incapaz de cumprir as suas funções, não manda a cautela permitir a cessação de funções?

Não perder o dossier do Esquerda sobre a Primavera de Praga, onde se incluem alguns doumentos sobre a consternação de comunistas portugueses que viviam em Praga perante a posição de apoio do PCP à ocupação soviética de um país aliado.

Não gosto, como é notório, dos textos de Ferreira Fernandes. Mais pelo conteúdo do que pela forma. Mas quando tem de ser tem de ser. “Não gosto de uivar com os lobos e fui cúmplice”, escreveu a propósito de um texto que publicara sobre Marco Fortes. Compreendo a frase. Também me irritam as alcateias ao ataque. É aliás essa a principal motivação do meu empenho nesta história dos Jogos Olímpicos. Sobretudo quando a presa está na mó de baixo e sabe pouco da caça.

Sei uma coisa, porque tenho obrigação de saber: se é difícil escrever todos os dias, é incomparavelmente mais difícil reconhecer um erro. Se em privado já não é pêra doce, imagine-se em público, para uns milhares pessoas que não conhecemos de lado nenhum. Não gosto do que Ferreira Fernandes escreve. Mas este texto foi de homem. E quando é assim tira-se o chapéu e pronto.

Com a vitória de Nélson Évora Portugal consegue a melhor participação de sempre nos Jogos Olímpicos. Não me lembro de tamanha irritação das outras vezes. O que se passa para as nossas crises maníaco-depressivas estarem cada vez mais violentas?

“(…)e depois o rancor, vertido agora para cima dos atletas olímpicos, vindo dos milhares de iluminados que como se sabe escrevem nos melhores jornais do mundo, participam nos melhores fóruns do mundo, escrevem dislates nas caixas de comentários dos melhores periódicos online do mundo, fazem posts nos melhores blogues do mundo que, em podendo, ensacavam medalhas atrás de medalhas até vir a mulher da fava rica, e depois há os que trabalham nas melhores empresas do mundo onde campeiam os melhores empresários do mundo, triunfadores que se amontoam em castelinhos de seriedade e dedito acusador, agora é a vez dos judocas, nadadores e saltadores, sobretudo os que fazem graçolas, noutras ocasiões é rancor contra os alienados que vão para a praia, contra a silly season como se o resto do ano à portuguesa fosse ao nível dos melhores do mundo, contra as férias pagas que isto é um país de encostados à sombra da bananeira, contra os políticos que querem é roubar, contra os ciganos que são preguiçosos e ladrões e não gostam dos filhos, contra os pretos que atiram sobre os ciganos [valha-nos isso], contra o governo e as oposições, contra os brasileiros que gostam mais do bes do que farofa (…)”

Ler tudo de um só fôlego no Irmão Lúcia

Aqui fica de novo uma reportagem que escrevi há exactamente dez anos (A República Checa mudou muito desde então), para a revista “Vida Mundial”, sobre a Primavera de Praga (cidade onde vivi em meados dos anos 90). O título da reportagem, na capa da revista, foi “O buraco negro da memória”. Como prometi, já transcrita e ficam as minhas desculpas por alguma gralha que resulte deste processo um pouco anorrecido. Depois da entrada, basta clicar no link para continuar a ler.

SÓ SE PERDE UMA VEZ

Em Janeiro de 1968, Dubcek subiu ao poder na Checoslováquia. Os oito meses que durou a chamada Primavera de Praga foram uma das últimas esperanças de renovação do socialismo. Com a chegada dos tanques soviéticos, essas esperanças morreram e morreu também o mais comunista dos países do Leste europeu. Mas foi o próprio povo checo que aceitou pagar o preço do mais alto nível de vida para lá da cortina de ferro. Agora, Praga já nem olha para trás, porque a história não se lembra dos que perderam.

Continue a ler ‘Foi há 40 anos (actualizado)’

Nada na lei do divórcio corresponde aos principais argumentos expostos no comunicado da Presidência da República para justificar o seu veto político: há participação de um juíz na avaliação das razões do divórcio e a violência doméstica, independentemente de qualquer lei do divórcio, é crime público e é como tal que será sempre tratada. Das duas uma: ou Cavaco se limitou a repetir o que mulheres em acção e os movimentos “pela vida” lhe disseram ou o veto tem apenas a função de preencher o silêncio de Manuela Ferreira Leite na oposição a Sócrates.

A verdade é que a razão da posição da Igreja e de Cavaco não é seguramente a defesa dos direitos da mulher (olha quem!), mas a defesa de uma determinada visão do que deve ser uma vida a dois: um contrato para a vida, mesmo que se transforme numa penitência. É a defesa do casamento indissolúvel, não a defesa de um casamento entre iguais.

“O Arnaldo Abrantes já é para aí a 15ª vez que vai aos Jogos Olímpicos”, disse Guilherme Aguiar para criticar o atleta pela justificação que deu para a sua eliminação.

Imaginando que este comentador desportivo não está a afirmar que este rapaz participa nos Jogos Olímpicos desde 1948 (o que seria um fenómeno digno de registo e explicaria o resultado menos feliz) ou que esteja a confundir Arnaldo Abrantes com o seu pai, que esteve em Seul há 20 anos (e com uma aparência um pouco mais envelhecida), suponho que se trata apenas de uma hipérbole. Mas a hipérbole é estranha, já que Abrantes não participou em cinco, quatro, três ou dois Jogos Olímpicos. Nem num. Foi a sua estreia. Aos 21 anos. Por isso, como a exigência não é apenas para os atletas, ou este comentador se informa ou revê as suas hipérboles que neste caso são um pouco absurdas.

Devo dizer que evito ver o programa em causa. Sou sportinguista e não gosto de me sentir envergonhado.

É impressão minha ou a comunicação social está mesmo a discutir a ameaça de Alberto João Jardim de criar um novo partido? A falta de assunto chegou a este ponto?

Na SIC diz-se que a participação dos atletas portugueses nos Jogos Olímpicos demonstrou pouca ética. Na RTP fala-se de falta de honra. Está tudo doido? Acordam de quatro em quatro anos para um desporto que não seja o futebol e depois querem ser inundados em medalhas? Sabem quanto gastam as potências do desporto nestas modalidades? Sabem quanto gastam em desporto escolar? Sabem quanto investem em cada atleta de alta competição? E sabem quantos destes recebem medalhas?

Fica esta pergunta: porque não me dão a SIC e a RTP tantos directos de guerras e tantas cachas internacionais como a CNN ou a BBC? Não me venham com a desculpa da falta de meios. Só pode ser por falta de ética e de brio profissional.

No fundo, trata-se de um país frustrado com o seu rumo que espera sempre uns heróis vindos de nada para lhe salvar o dia. Maldita megalomania que não corresponde a nenhuma ambição!

Vale a pena ler os posts de Pedro Sales: este, este, este, este e este. E ficar com esta frase do melhor atleta de vela português Gustavo Lima: “para andar a ouvir frases como “os portugueses andam a gastar o dinheiro dos contribuintes” eu prefiro sair fora e sair de consciência tranquila”.

PS: o secretário de Estado do Desporto esteve muitíssimo bem no que disse hoje. O anúncio de demissão do presidente do Comité Olímpico a meio dos jogos é de uma incompreensível falta de solidariedade para com os atletas e os atletas foram aos jogos para competir, não para prestar declarações. E é no desporto que são bons, não é a fazer declarações.

Só a sociedade de consumo poderia ter criado um produto magnífico que não faz mais do que criticar a sociedade de consumo. E sempre com imensas referências a uma empresa (a Apple) e uma multiplicação de produtos paralelos ao filme para vender: merchandising, jogos de consola… Como se sabe, a critica ao consumo tem, como produto, imensa saída.

Não podem perder Wall-e. Um dos melhores filmes de animação dos últimos anos.

É uma boa metáfora que o regresso de Sócrates às suas funções tenha sido a inauguração de um call-center para mostrar empenho na criação de emprego. A autarquia de Santo Tirso cedeu os terrenos à PT, uma área total de 3700 metros quadrados (uma mama que empresas sem qualquer dificuldade financeira arranjaram, esta de receberem terrenos pagos pelos contribuintes). Em troca, a PT diz que vai privilegiar a estabilidade no emprego. Vai contratar pessoas? Não queriam mais nada? Vai recorrer a empresas prestadoras de serviços. Mas há mais: diz a imprensa, repetindo o que lhe foi dito, que se trata de criação de “emprego qualificado”. Porquê? Porque será dada prioridade a candidatos que tenham o 12º ano. Sim, leram bem: call-center agora é “emprego qualificado”. Basta que os “colaboradores” tenham o 12º ano. Se tiverem licenciatura, como muitos têm, suponho que serão quadros superiores.

Pequeno-almoço de Michael Phelps durantes os Jogos Olímpicos:
3 sanduiches de ovo, queijo, alface tomate, cebola e maionese
1 omoleta de cinco ovos
1 tigela de batatas fritas
3 rabanadas
3 panquecas de chocolate
2 chávenas de café

Atrasada, aqui fica a minha homenagem ao grande Dorival Caymmi, o homem que esteve no centro de todos os momentos que deram fama internacional à música brasileira: de Carmen Miranda até hoje, passando pela Bossa Nova.

Cantada por João Gilberto e Caetano Veloso, Doralice, de Caymmi:

O ditador que era aliado dos americanos depois de ter sido amigo dos taliban caiu. Uma excelente notícia, num país onde, graças as estas boas relações com os EUA,  os radicais ganhavam força todos os dias. Mas a acompanhar com cautela. O Paquistão - que apesar de ser mais instável do que o Irão não preocupa tanto o Mundo - tem armas nucleares. Pervez Musharraf acabou. Felizmente. Mas nada garante que depois dele virá melhor.

Os artigos do Expresso desta semana já estão num link d coluna da direita e aqui. Sobre o caso do BES e da criança morta e sobre a Geórgia. Os da semana anterior estão na página do costume.

O ouro era excelente, a prata foi óptima. Ou, como disse um mítico Venceslau Fernandes, pai da atleta, “foi uma grande vitória para Perosinho“.

A meia-final dos 100 metros de hoje foi a última corrida da carreira de Francis Obikwelu que vai abandonar o atletismo. O anúncio foi feito pelo próprio aos jornalistas, pouco depois de ter falhado a passagem a final. Aos portugueses pediu desculpa por nao ter conseguido e lembrou o apoio incondicional que sempre lhe deram.

“Quero agradecer aos portugueses, porque toda a gente vê as minhas provas e quero pedir desculpa, porque estão a pagar para eu estar aqui e não consegui chegar à final. É um momento mau, porque esse é o meu trabalho. Queria dar pelo menos a final. Sinto-me na obrigação de pedir desculpas, porque esse é o meu trabalho e pagam-me para fazer isto. Deixei o meu país ficar mal.”

Francis Obirah Obikwelu nasceu na Nigéria. Veio trabalhar para Portugal com 16 anos. Depois de ser rejeitado pelo Benfica e pelo Sporting, foi trabalhar para a construção civil no Algarve e aprendeu português com uma professora que o ajudou nos primeiros contactos com o Belenenses. Viveu por baixo das bancadas do Estádio do Restelo. Obikwelu pede desculpas porque lhe pagam. E agradece ao seu país, que acha que, apesar de tudo o que já deu, deixou ficar mal.

No distrito de Harrold, no Texas, os professores vão poder andar armados nas escolas. (Aqui)
Hartford, no Connecticut, decreta recolher obrigatório depois das 21 horas para menores de 18 anos. (Público de ontem)

“Cheguei à conclusão que de manhã só estou bem na caminha”
Marco Fortes, lançador do peso, depois de ser eliminado.

Aconselho a leitura da reportagem do “Sol” sobre o acampamento dos jovens do Bloco de Esquerda. O jornalista esteve lá alguns dias e acampou. Relata umas coisas interessantes e outras risíveis. A reportagem não é perfeita para a imagem do Bloco, mas é séria. Ultrapassa o estereótipo da ganza e dos freaks, que, para quem conhece o BE, faz tão pouco sentido. O Bloco tem, como todos os grupos, as suas idiossincrasias, dificeis de compreender vistas de fora (algumas até vistas de dentro). Não são é tão fáceis de explicar como parece julgar o mero preconceito cultural e ideológico. É excelente que um jornalista se tenha dado ao trabalho de não ficar por umas larachas depois da leitura do programa do acampamento. As larachas estão lá, as gaffes de alguns participantes também, mas pelo menos são contadas por alguém que saiu da sua redacção. Eu também acho que entre os jovens do CDS só há meninos da linha. Se fosse jornalista iria a iniciativas deles e seguramente acabaria por descobrir que as coisas são sempre menos simples do que gostaríamos. Foi o que fez José Fialho Gouveia. E pronto, hoje já não elogio mais nenhum jornalista.

Ontem vi uma excelente reportagem (já antiga, mas que me tinha escapado) na SIC Notícias. Daquelas que quase já não se fazem. Passava-se num balneário público de Lisboa. E o balneário era um lugar para olhar para a miséria urbana. Sem o apelo à emoção fácil, naquela reportagem as pessoas não eram personagens para um enredo. Eram pessoas. E este é o maior desafio de uma reportagem: não reduzir as pessoas à sua condição, ao papel que têm naquela narrativa.

Esperei pelo fim para ver quem assinava o trabalho e não me espantei: Miriam Alves. Não a conheço pessoalmente mas tenho acompanhado o excelente trabalho que vai fazendo na SIC. E nem sempre sobre assuntos esteticamente apelativos (como é a miséria, tão perigosa em trabalhos ligeiros). Vi uma vez uma reportagem sua em que ounha em confronto as várias formas de ensinar nas escolas portuguesas e as várias correntes pedagógicas. Tema árido para televisão. Não perdi um segundo. Excelente. Nem um dos lugares comuns que enchem as páginas de jornais e as reportagens televisivas.

Fui, há muitos anos, editor de um programa da RTP 1 (o Luís Osório era coordenador). Chamava-se “Loja do Cidadão” (nome pouco conseguido) e tinha cinco reportagens com dez minutos cada. A ideia era simples mas perigosa: provar que qualquer assunto pode ser tratado por jornalistas. Não são os assuntos que são sensacionalistas, é o trabalho do jornalista que é preguiçoso ou competente.

Primeira regra: as pessoas, todas as pessoas, merecem ser tratadas com respeito. Não são personagens. E quanto mais anónimas forem mais respeito merecem. Segunda regra: evitar o óbvio. A realidade é quase sempre mais complicada. Terceira regra: o jornalismo não fala apenas do excepcional, do homem que mordeu o cão. Fala também, se quer cumprir a sua função, do banal, do habitual, do cão que mordeu o homem.

Ao ver as reportagens de Miriam Alves vejo tudo o que queríamos (umas vezes conseguíamos e outras não) naquele programa.

Miriam Alves, que é relativamente jovem, venceu, com “O Balneário”, o 1º Prémio no Festival Internacional de televisão de Monte Carlo. Para mim, cada vez mais desiludido com o rumo que leva o jornalismo português (e ainda mais o jornalismo televisivo), é um prazer imenso saber que há jornalistas como Miriam. E o facto dela conseguir fazer este tipo de trabalhos numa televisão comercial é a prova de que é possível. É uma escolha que se faz.

Aqui fica a reportagem:

Human Rights Watch duvida que eleições legislativas em Angola sejam livres e justas: Activistas documentaram intimidações e pressões de militantes do MPLA sobre as demais forças políticas, a começar pela UNITA. Em Cabinda, continuam as detenções de civis. (no “Público” de hoje)

Através do inacreditável comportamento do Metropolitano de Lisboa para com Maria Keil, autora dos paineis de azulejos das antigas estações do metro, saiba como é que neste país quem faz qualquer coisa sem cobrar em vez de merecer gratidão merece desprezo. No Cantigueiro.

Ser imigrante ou ser português é uma variável pouco importante nos indíces de criminalidade. Podem ler o post da Maria João e o relatório “A criminalidade de estrangeiros em Portugal”, da autoria de Hugo Seabra e Tiago Santos.

O debate sobre o que aconteceu a uma criança durante um roubo de material de construção agora é este: quem é responsável por esta morte? Os assaltantes que a levavam ou a GNR que disparou dois tiros para os pneus que, por um azar que desafia a estatística, acabaram no peito do menino. Por isso, já sabem, crianças que tenham o azar de ter pais atrasados mentais que as levam para assaltos não se podem queixar. A polícia não tem culpa e faz o que tem a fazer. O que é a vida de uma criança ao pé do risco de fuga de um assaltante? Helena Matos faz mesmo esta pergunta: Ninguém é responsabilizado por levar uma criança para um assalto? Eu tenho ideia que as pessoas até são responsabilizadas por fazer assaltos. E se o fizerem com uma criança ainda o serão mais. Mas é de esperar que o problema não fique resolvido com a responsabilização dos assaltantes e se espere que a polícia não seja tão irresponsável como os assaltantes e tenha a vida daquela criança como primeira das primeiras prioridades. Acho eu, que sou um relativista e acho que as crianças não têm culpa dos pais que lhes calharam em sorte. Os policias não sabiam da existência da criança? Acredito. Por isso mesmo existem regras e têm de ser cumpridas. Para que não se chore depois mortes inúteis de inocentes.

O textos do Expresso desta semana está disponível no link da coluna da direita. Aqui no Arrastão já estão disponíveis os textos das semanas anteriores. Mas o que me deu mais trabalho foi mesmo a página dedicada ao Eixo do Mal. Estão 32 novos vídeos disponíveis.