Ó pai,vamos chumbar o setôr
Não discuto – nem percebo que alguém discuta – se os professores devem ser avaliados. Um bom professor vale dez reformas curriculares. E há casos aberrantes de incompetência ou puro erro de vocação. A forma de avaliação actual é o mesmo que não haver avaliação nenhuma. E isso tem de mudar. Mas, pelo menos à primeira vista, a proposta do governo parece-me um disparate pegado.
Pôr os pais a avaliar os professores não cabe na cabeça de ninguém. Bem sei que o Ministério diz que serão acauteladas as pressões de pais contra professores que resolvam dar notas mais baixas aos seus filhos. Não imagino como se acautelam intenções subjectivas. Sei, toda a gente sabe, que os pais geralmente não conhecem os professores a não ser por o que deles dizem os alunos. Sei, toda a gente sabe, que, com a pressão para a entrada no ensino superior, a maioria dos pais tem como principal (e única) preocupação em relação à educação dos seus filhos a nota que os professores lhe vão dar. É um convite ao facilitsmo dos professores que esta gente diz querer contrariar.
Avaliar os professores pelas notas dos seus alunos nos exames parece razoável. Mas não é. O Ministério diz que o contexto sócio-económico da escola será ponderado. De facto, um bom professor de alunos que vivam num ambiente pouco propício ao estudo tem o triplo do esforço para fazê-los passar de ano do que um mau professor tem para que alunos mais favorecidos tenham notas razoáveis. Os pais, os livros e as explicações podem fazer o trabalho que eles não fazem. Mas desconfio muito de ponderações aritméticas neste tipo de coisas. O ambiente social não se mede apenas pelos rendimentos.
Este tipo de regras universais e burocráticas são muito ao gosto do funcionalismo público. Estranhamente, os mesmos que se atiram permanentemente à máquina pesada e cega do Estado aplaudem com pés e mãos esta lógica quando ela serve para mostrar mão pesada aos funcionários públicos. Não acredito neste tipo de avaliação. Assim como não acredito que a obsessão por exames forme bons profissionais.
O meu melhor professor de sempre nunca me preparou para um exame. Fez-me apenas querer ser jornalista. Chamava-se Fernando Cabral e era professor de Introdução ao Jornalismo (esta disciplina já não existe). Fez-me ler imensas coisas. Fez-me julgar que sabia escrever. Fez-me querer ir às aulas dele. Porquê? Porque gostava dos alunos. Porque adorava dar aulas. Não imagino como este sistema o poderia avaliar. Nem sequer imagino que ficasse especialmente obcecado com a avaliação. A “progressão na carreira docente” não era a sua prioridade.
O problema da nossa escola, se é permitida uma opinião a este leigo em eduquês e burocracia, é de dimensão. Defendo a autonomia curricular das escolas. Defendo (pecado!) a autonomia contratual das escolas. Defendo a autonomia de avaliação das escolas. Acho que uma escola na Cova da Moura, em Carrazeda de Anciães e na Lapa dificilmente podem ser dirigidas da mesma maneira, ter as mesmas estratégias de ensino, ter a mesma lógica de contratação de professores e fazer a avaliação de professores de forma igual. O Ministério deve ser a entidade empregadora, fiscalizadora e definidora das grandes linhas do sistema educativo. Mas só num sistema de maior proximidade se podem distinguir os bons dos maus professores.
Dito isto, a reacção da FRENPROF ao que foi proposto, prometendo uma guerra “terrível”, fazendo pairar a ameaça de uma greve nos exames e não se dando ao trabalho de ir ao debate sobre o tema não podia ser pior. A melhor maneira de não ter a solidariedade de ninguém. Um enorme favor que fazem ao governo. E o acentuar da ideia de que, por eles, nunca nada mudará. Quem quer resistir ao disparate tem de usar a inteligência.
Comments
Após quase 30 anos de ensino, professora por vocação, paciência de Santa para com os alunos( como dizem os meus colegas), já mt coisa boa e também, mt má, me passou pelas "mãos"! Já vi de tudo! Já dei aulas em bairros desfavorecidos e em escolas "modelo" de Lisboa, como também em escolas de província. Só tenho uma verdade: "O sistema de ensino está doente, tal como outros sistemas deste País- saúde, Justiça, Finanças, Segurança social..etc", e já ninguém acredita neles! E de quem é a culpa? dos Professores?! mas os professores não são os únicos agentes de toda a administração pública!!Curiosamente, ainda não ouvi ninguém culpabilizar agentes de outros sistemas públicos!!! porque será?! Respeitinho! Os outros têm Ordens que os protegem!!!!
E já agora, só mais uma coisinha que possivelmente Portugal não sabe: A Escola tornou-se no "Teatro de Operações" de uma guerra que as famílias travam entre quatro paredes- Muitos alunos vão para a Escola com fome, vítimas de agressões e revoltados com problemas socias e familiares gravíssimos, empurrados do pai para a mãe, para os avós , tios padrinhos e na falta de alguém que os acolha, para instituições. Quem estará disponível para aprender quando não vê satisfeitas as suas necessidades básicas de sobrevivencia, ou quando está em causa toda a sua vida afectiva, familiar, psicológica e a formação de uma personalidade que deveria ser equilibrada? É bom que se comece a pensar seriamente na forma de minimizar estes problemas que são os que estão verdadeiramente na base do insucesso escolar e se deixe aos profissionais do ensino fazer o seu trabalho! porque a grande maioria dos professores sabe do seu oficio! A maioria dos professores, antes de fazer o seu trabalho, "ensinar", tem que cativar uma turma de miúdos com todo o tipo de problemas: Tem que dar apoio psicológico, pagar o pequeno almoço ou o lanche, arranjar materiais para que o aluno possa acompanhar as aulas, ser confidente, ter uma palavra de carinho, passar a mão pela cabeça, ou mesmo dizer..." não tens outro casaco mais quentinho, ou ...mais limpo, lá em casa?". Esta é a realidade do País que temos! A partir de agora acho que estão esclarecidos e já podem começar a avaliar os professores como psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, amigos, pais que alguns alunos gostariam de ter...e depois...professores!
Pois é!..sei que os pais não gostaram do que acabei de descrever, mas esta é A MINHA REALIDADE COMO PROFESSORA...e com mt gosto! se tivesse que mudar, deixaria de ser quem sou! PROFESSORA!
Ana Ribeiro
Posted by: Ana Ribeiro | junho 1, 2006 12:04 AM
Concordo plenamente contigo.
Alguns dos comentários aqui presentes querem comparar o nosso sistema com o nórdico, esquecendo-se do grau de instrução dos pais daqueles países e do grau de instrução dos pais das crianças que frequentam a escola em Portugal. Nem tudo é mau, é verdade, nem podemos generalizar... mas também não devemos comparar o que não é comparável, sem acautelarmos as devidas hipóteses diferenciais, que são muitas e significativas. Cumprimentos.
Posted by: Joaquim Guerra | maio 30, 2006 03:10 PM
Concordo, esta medida enferma de populismo, além da tradicional obsessão dos burocratas pela uniformização das coisas.
Creio também que o caminho é o da autonomia das escolas, até porque, como muito bem diz, Lapa e Cova da Moura exigem diferentes estratégias de ensino.
Embora a reacção da Frenprof não tenha sido a mais apropriada, o que sobressai daqui é uma prática política feita de demagogia e aviltamento da classe docente, por parte de um governo que não tem verdadeiramente ideias para a Educação.
Posted by: Luís Marvão | maio 30, 2006 02:42 PM
Natália,
Aqui não se insultam os outros comentadores sem qualquer conteúdo. Se não era esse o seu objectivo, fica o meu pedido de desculpas.
Posted by: Daniel Oliveira | maio 29, 2006 04:04 PM
Censurada por tão pouco Daniel? Só se há razões que você conhece e eu não. Vou acreditar que é isso.
Posted by: natália | maio 29, 2006 03:18 PM
É bom ver que o Daniel se converteu ao liberalismo noutras matérias que não exclusivamente as de costumes, defendendo agora a autonomia contratutal e curricular das escolas. O Daniel certamente terá notado que, nestas matérias, está a concordar com... o PSD.
Posted by: Luís Lavoura | maio 29, 2006 12:27 PM
Bom post !
Para variair concordo !
Nota: não sou, nunca fui e nunca serei professor.
Posted by: fidel | maio 29, 2006 12:21 PM
Excelente Daniel Oliveira. Os romanos continuam loucos, sejam os romanos do ministerio sejam os da Frenprof.
Uns e ouros procuram apagar os bons fofissionais do ensino.
Os mediocres agradecem, como sempre.
Posted by: Henrique | maio 29, 2006 11:29 AM
Daniel,
Tenho um sobrinho de 17 anos de quem sou encarregado de educação. O puto teve o azar de ter uma professora de Matemática que:
- Chama burro e anormal a todos os miudos que colocam duvidas;
- Despeja teoria e não explica como fazer exercicios;
- Não passa trabalhos de casa;
Toda a turma anda desmotivada com a matemática; no ano passado a professora era outras e as coisas eram bem diferentes. O melhor aluno que no ano passado tinha 17, hoje tem 10 ou 11.
Quando falei com ela e perguntei o que se passava, ela desculpou-se com o programa, que era uma porcaria, etc, etc, etc. Para me calar ainda deu um 10 ao meu sobrinho no final do período (que não tem conhecimentos para um 6, quanto mais um 10). Eu insisti que não queria que o miúdo tivesse positiva, mas que tivesse gosto pela matemática, que dominasse a matéria.
E pedi-lhe que passasse TPC's para que eu pudesse acompanhar melhor a matéria que eles iam dando. Claro que corrigir TPC's dá muito trabalho. E nunca o miúdo levou TPC's para casa.
Uma gaja destas não durava um mês numa escola privada. Porque é que os nosso impostos devem sustentar este tipo de gente incompetente? Porque razão, não podem os encarregados de educação dar o seu contributo para que este tipo de pessoas seja afastado do ensino?
Uma tipa destas merece a nossa censura, tal como outros herois do nosso sistema de ensino merecem o nosso elogio.
Oxalá que venha a autonomia das escolas. Quero ver quem contrata uma professora destas! Quando for a escola (e não o Ministério!) a responsabilizar-se pelo que acontece aos alunos vai acabar o status quo destas nódoas do nosso sistema de ensino.
Posted by: Marco Oliveira | maio 29, 2006 11:06 AM
Não vejo porque é que os pais não podem ter uma opinião sobre o desempenho dos professores dos seus filhos. Hoje, se assim o entenderem, já o podem fazer dirigindo-se aos órgãos representativos da escola. Toda a gente pugna por uma maior participação dos pais na escola e depois, cada vez que se dão passos nesse sentido, aqui d'el rei que eles vêm aí...
Já quando foram criadas as assembleias de escola levantou-se o carmo e a trindade pela participação dos pais nesse órgão de gestão. A verdade é que a prática veio demonstrar que a presença dos país tem sido muito útil. Nos paises nordicos os órgãos de gestão das escolas são constituidos maioritariamente por pais e não consta que o sistema de ensino deles funcione com maus resultados.
No fundo, Daniel, não é em vão que se comemoram os 80 anos do início do poder corporativo em Portugal. Oitenta anos para isto, dizias...
Posted by: real | maio 29, 2006 11:03 AM
É difícil resistir à tentação conspirativa de cada vez que as luminárias da 5 de Outubro produzem normativos. Sobre os sindicatos (uma dúzia, pelo menos)nem vale a pena falar.Mas confesso que talvez não fosse má ideia os pais avaliarem....os filhos!E os filhos os pais!Pelo menos confirmavam-se, no interior da escola, as reais relações de poder entre os intervenientes: os pais que transformaram a escola em armazém e os professores em animadores (com a cumplicidade interesseira do ME), e os filhos que tiranizam os pais em horários, consumismos,refeições,etc. Exagero?Certamente. Mas não fantasio.
Posted by: San | maio 29, 2006 10:58 AM
Voltamos ao redutor problema da desculpabilização e falta de escrutínio no funcionalismo do estado. "Como em todas as profissões, há maus e bons profissionais" Como disse? Nos professores é tudo avaliado com a nota de excelente! Todos retêm na memória e recordam com gratidão os bons professores, dos que faziam a diferença. Professores, não funcionários. Entenda-se!
Eu já não pedia muito, já nem em questão de competência vocacional, só pedia avaliação a nível de competência técnica. É que com a devida relação, se realizarem exames, tal como os fazem aos alunos, com o mesmo nível de exigência, temos muitos chumbos. Alguém duvida? Falta é saber quantos..
É uma guerra daquelas com os funcionários públicos, que são professores.
Posted by: JG | maio 29, 2006 10:47 AM
Excelente post. Concordo.
Posted by: Luís Lavoura | maio 29, 2006 09:58 AM
Tenho estado sem saude e sem tempo para acompanhar devidamente este caso.
No geral concordo com o que disse.
Como professor (com muita experiência) digo apenas que o assunto é muito complexo e não me parece que o ministério esteja bem seguro mas antes a ser impurrado pela comissão de pais que de pais são poucos.
O país pode quer que pagar ainda maior factura com o socesso estatístico e insucesso cultural pior do que temos.
Posted by: João Norte | maio 29, 2006 08:48 AM