Li o tão elogiado texto de Manuel Maria Carrilho sobre a crise dos partidos. Aqui vai uma lapalissada: a crise dos partidos em democracias representativas corresponde apenas a um sintoma da crise das formas de representação política. Mudanças na organização interna dos partidos pouco podem contra um problema que é muito mais profundo do que as formas de funcionamento partidário. Se os problema fosse esse as pessoas entrariam na mesma nos partidos e rapidamente eles passariam a funcionar de forma diferente. Os partidos são hoje como são porque as pessoas não se envolvem na sua vida e não o contrário. Por mais apelativo que um partido se torne, por mais aberto, democrático, sedutor que seja, continuará com as sedes às moscas.
E basta ler o texto de Carrilho para perceber porquê. Não que dê as respostas. Mas porque o próprio texto é um sintoma das razões da crise. Em todo o texto Carrilho quase nada se diz sobre política. Sobre política mesmo: opções programáticas e ideológicas. Ou seja, fala da crise dos partidos sem a associar ao conteúdo político dos partidos.
Vamos partir do princípio que as pessoas têm um sentido prático apurado. Que se envolvem na vida pública quando a sua intervenção pode fazer alguma diferença. Que se envolvem na vida partidária quando pensam que o poder político (é disso que os partidos tratam) pode fazer alguma diferença nas suas vidas. Envolvem-se para mudar, quando a mudança parece possível, ou para conservar, quando sentem que algo de muito importante está em perigo. Nas últimas eleições francesas os eleitores foram votar. Havia um combate político duro e relativamente claro. No nascimento da nossa democracia os portugueses envolveram-se na vida política e partidária. Estava em causa o que viria a ser o nosso regime. Quando podem fazer a diferença as pessoas votam, participam e até militam em partidos.
A verdade é que nos últimos anos ninguém consegue descortinar, entre os partidos que podem chegar a poder, nenhuma fractura clara. Mais: tudo é mais ou menos inevitável. Por causa da economia global, por causa da Europa, por causa do que for. O pragmatismo de quem não tenha o "vício da política" faz com que não se envolva excessivamente nela. Porque onde as coisas se decidem a política representativa não intervem e onde ela intervem apenas se gere o que já está decidido. Perante isto, PS e PSD vivem, no essencial, em torno de consensos. Com a chegada de José Sócrates o consenso passou mesmo a corresponder a uma absoluta sobreposição política. É isso que explica o estado comatoso do PSD. As rábulas à volta dos problemas estatutários nada têm a ver com os estatutos do partido. Têm a ver com o facto do PSD estar na oposição e não ter nada para discutir sobre as alternativas que tenha a apresentar à governação do PS. Porque pura e simplesmente não tem alternativas nenhumas. E, na falta delas, dedica-se ao que sobra: aos incidentes processuais.
Na verdade, nada de muito importante se decide com o voto e com a participação partidária. Os programas políticos são no fundamental concordantes e nas eleições apenas se avaliam a competência e a personalidade dos seus protagonistas. Ora, como a falta de dramatismo entre escolhas afasta muitos quadros - que só estão dispostos uma actividade em acelerada degradação de estatuto social se alguma coisa de relevante estiver realmente em causa -, os protagonistas tendem a ser, eles próprios, cada vez mais medíocres. A falta de interesse acentua-se.
Mas há uma razão mais profunda: a privatização das relações sociais. A retirada de poderes sociais e económicos ao Estado (com tendência para um aumento de poderes repressivos e de vigilância), a destruição sistemática das formas de representação social (dos sindicatos, por exemplo), a individualização das relações laborais e a privatização dos espaços públicos retira do centro do combate político o próprio poder de Estado e até o activismo cívico. Essa é a razão principal da crise dos partidos: é uma crise do próprio Estado. E o que é estranho no texto de Manuel Maria Carilho é que, escrevendo fundamentalmente sobre a crise do seu partido, não se aperceba que é, no caso do PS, o enterro definitivo da social-democracia que torna o PS, enquanto organização que deveria estar acima dos seus líderes circunstanciais, completamente inútil. Julgar que um think-tank ou um blogue temático resolve seja o que for é de uma candura surpreendente.
É verdade que Carrilho defende, no fim do artigo, a necessidade de se revigorar os principais valores diferenciadores do PS. Mas para este debate ser qualquer coisa precisava de dizer quais são esses valores e em matérias se deveriam manifestar. E é aí que a porca torce o rabo. Se o dissesse Carrilho teria de fazer duras críticas ao seu próprio partido. Daquelas que o diferenciassem politicamente. Estaria a dar à democracia aquilo que nela tem faltado e de que ela se alimenta: conflito. Porque é no conflito, no programa e no debate em torno do papel do Estado que está a resposta à crise da democracia representativa que se sente nos partidos, mas não só.